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Voltava ao Butantã, pela Linha Amarela. Era manhã de um domingo e o metrô estava consideravelmente vazio e tranquilo. Sentava-me em um dos vários assentos livres do trem, sonolento. Comigo, bocejava todo o vagão, todos os passageiros visivelmente abatidos e cansados, como é comum na manhã de qualquer domingo. O trem espreguiçou rapidamente e partiu.

Saí da Luz. Passei pela República. Cheguei à Paulista. Uma mulher sentou ao meu lado. Bem arrumada, como a maioria das que descem ou chegam dessa estação, cabelo solto, decote comedido, sandálias delicadas, pé bem feito. Nada de soberbo. Quando o trem começou a andar, ela tirou um cortador de unha, um paninho rosa e passou a cuidar, despreocupadamente, de suas unhas.
Plic. Voava um pedaço de unha. Com ele ia meu olhar. Plic. Aparava-se com maestria esse e aquele lado. E algumas partes caíam no chão. Ela, calmamente, juntava-os e os colocava no paninho. Plic. “Próxima estação: Faria Lima”. Plic. Parecia um mantra. Meu sono, que já era grande, aumentava a cada corte. Plic. Quase me deitei no colo dela. Plic. Plic. Plic.
Em Pinheiros, ela desceu. Eu segui suas mãos guardando o cortador e o paninho dentro da bolsa e depois descendo. As unhas aparadas acompanhavam o balanço das mãos, que acompanhavam o balanço dos braços, que acompanhavam o balanço do corpo, que acompanhava o balanço da saia, que era perfurada pelo meu olhar.
Ela se foi e eu fiquei.
Faltou a foto.